A Riba Brasil começa a operar neste mês sua própria montadora de veículos elétricos em Manaus. Nas duas últimas décadas, a companhia operou com locação de motos para entregadores e a fábrica marca uma guinada no modelo de negócio – criando também demanda de capital.
Além das motos para entregadores, a produção vai incluir o que a companhia define como os primeiros autopropelidos – equipamentos de mobilidade individual com motor próprio, mas que dispensam CNH e emplacamento – de uso profissional no mundo. As lambretas da categoria têm limitação de velocidade (32 km/h) e potência, assim como os patinetes e skates elétricos.
Com capacidade inicial para montar três mil veículos mensais somando as duas categorias, a linha de montagem dá partida em um plano para fabricar até 100 mil ciclomotores e autopropelidos – também para venda, não só locação – em até três anos, o que vai exigir cerca de R$ 2 bilhões entre equity e dívida, nas contas do CEO Carlos Roma.
A companhia pretende começar a captação já nos próximos meses, primeiro buscando uma tranche de R$ 400 milhões combinando ações e dívida. “Não captaremos tudo de uma vez. Como este é um projeto sustentável, podemos buscar fontes diferenciadas de financiamento, incluindo dívidas subsidiadas e green bonds, com custos mais adequados”, diz Marcelo Di Lorenzo, conselheiro e maior investidor da Riba. A empresa não divulga o faturamento atual ou resultado.
O desenvolvimento das motinhos foi pensado para aguentar o tranco da última milha nas grandes cidades, e levou dois anos junto aos fabricantes chineses e aos sócios portugueses, do CEiiA, espécie de MIT de Portugal. “Há 10 milhões de brasileiros que não trabalham nem estudam, e muitos não têm nem dinheiro para tirar a CNH”, diz Roma, que é engenheiro mecânico.
“Os chineses demoraram a entender por que nós precisávamos de um veículo tão resistente, mas nós sabíamos exatamente o que queríamos”, complementa Di Lorenzo, que tem outros 19 sócios na holding, com 43% da empresa. Além desse grupo, há quatro acionistas diretos e o fundador, Island Faria Costa, que tem 25% das ações.
Roma e Di Lorenzo estimam haver mais de 800 mil autopropelidos em circulação no país, mas a maioria é voltada ao lazer. “Não aguentam duas semanas de uso intenso. Não são resistentes para trabalhar de oito a 10 horas por dia e usam baterias de baixa qualidade”, diz o conselheiro.
Para chegar ao modelo ideal da Ribinha Bairros, como o veículo foi batizado, a Riba já testou os novos autopropelidos em São Paulo. Também realizou projetos-piloto com as motos elétricas tradicionais no serviço de mototáxi da 99 em Belém e da 99 Food em Maringá. A ideia de regiões e serviços distintos era testar a durabilidade das baterias em diferentes condições climáticas e de uso.
“Rodamos mais de três milhões de quilômetros e fizemos inúmeras entrevistas com os condutores”, diz Roma. O executivo acumula experiência em elétricos desde 2002, com passagens pelas americanas General Motors e Ford e pela chinesa BYD.
Por conta das limitações de velocidade e segurança, a ideia é que o uso dos autopropelidos seja restrito a vias locais, fora das marginais ou grandes avenidas. Já as motos elétricas, que se enquadram na categoria de ciclomotor e exigem CNH e emplacamento, circularão normalmente pela cidade toda. Nesse segmento, a concorrência principal é com a Vammo, também eletrificada, e com a Mottu, ainda majoritariamente com motores a combustão indianos, todas com montadora em Manaus.
Como as concorrentes, a fábrica da Riba receberá kits CKD – completely knocked down, ou “completamente desmontados”, para que o veículo seja finalizado no país de destino – de três fabricantes chineses, para não depender de um único fornecedor. Em um segundo momento, planejam investir até R$ 40 milhões em uma nova planta para itens como chassi.
A Riba quer levar para grandes cidades, como Santos e Campinas, e todas capitais do país os veículos. Para isso, mira cerca de oito mil pontos de troca de bateria (aproximadamente uma estação para cada 12 motos), em que o entregador entrega uma vazia e pega outra cheia. Para percorrer 350 km num mesmo dia, um entregador chega a usar oito baterias.
Fonte: Pipeline Valor